
O desenvolvimento de Grand Theft Auto 6 atingiu níveis de proteção comparáveis aos de segredos industriais históricos e instituições financeiras de grande porte. Durante a abertura de um processo no Tribunal do Trabalho de Glasgow, na Escócia, a Rockstar Games detalhou a extensão das medidas de segurança adotadas para conter vazamentos do jogo, revelando episódios que vão desde a espionagem por drones até o monitoramento de entregas de comida ao redor de seus escritórios.
A audiência contrapõe a desenvolvedora ao sindicato Independent Workers of Great Britain (IWGB), que representa 31 ex-funcionários demitidos no Reino Unido — além de três desligamentos ocorridos no Canadá. Enquanto o sindicato alega que os trabalhadores foram colocados ilicitamente em uma lista negra e dispensados devido a atividades sindicais, sem direito a processo disciplinar ou recurso, a Rockstar sustenta que as demissões ocorreram por má conduta grave relacionada ao compartilhamento não autorizado de detalhes do projeto no Discord.
Segurança no nível de bancos de Wall Street
Em sua alegação inicial perante a Justiça do Trabalho, a Rockstar comparou a necessidade de proteger o design e as mecânicas de GTA 6 à postura da Apple com o iPhone ou da Coca-Cola com sua fórmula secreta. A empresa afirmou adotar "o nível de segurança de um banco de Wall Street", alegando que os padrões aplicados aos seus colaboradores estão substancialmente acima da média de outros empregadores do setor de tecnologia.
Entre as revelações apresentadas no tribunal sobre a rotina de trabalho e infraestrutura da desenvolvedora, destacam-se:
- Películas de privacidade nas janelas: a empresa foi forçada a instalar películas protetoras nos vidros dos prédios após identificar a presença de drones tentando fotografar o interior dos escritórios através das janelas;
- Equipe dedicada de investigação: a desenvolvedora mantém uma equipe interna em tempo integral composta por cinco investigadores e um diretor focada exclusivamente em monitorar e apurar vazamentos de dados;
- Bloqueio rigoroso de dispositivos: dispositivos de armazenamento externo, como pen drives, são estritamente proibidos. Celulares, tablets e notebooks pessoais dos funcionários não possuem autorização para se conectar às redes internas da empresa;
- Proibição de fotografias e relatos familiares: fotos do local de trabalho — incluindo registros inofensivos de mesas de trabalho — são proibidas. Os funcionários são orientados a não discutir detalhes do projeto nem mesmo com parentes;
- Controle de visitantes e presencialidade: o trabalho remoto sofreu severas restrições, e prestadores de serviços externos precisam ser acompanhados por agentes de segurança durante toda a permanência nos prédios, além da assinatura obrigatória de acordos de confidencialidade (NDAs) por qualquer visitante.
A disputa entre direito trabalhista e proteção de mercado
A justificativa da Rockstar para o rigor das regras reside no impacto financeiro que revelações prematuras causam às suas operações e ao valor de mercado da sua controladora, a Take-Two Interactive. Segundo o documento do processo, a alteração oficial na data de lançamento do jogo para 19 de novembro de 2026 provocou uma queda de US$ 3,75 bilhões no valor de mercado da Take-Two em um único dia. Um incidente mais recente envolvendo chantagem e vazamentos pelo grupo de hackers CyberLeek teria gerado uma perda temporária de US$ 2 bilhões em valor de ações.
De acordo com a empresa, as mensagens publicadas no Discord pelos funcionários demitidos abordavam recursos do jogo, andamento geral do projeto, prazos de lançamento e protocolos de segurança da informação. A Rockstar argumenta que a exposição dessas conversas representava um risco comercial crítico.
Por outro lado, o sindicato IWGB e os trabalhadores afetados contestam a narrativa. Jason Lewis, ex-funcionário envolvido no processo, declarou que o grupo discutia condições de trabalho e que a demissão causou a perda de renda, da comunidade profissional e da oportunidade de concluir o projeto ao qual dedicaram anos. O sindicato relata ainda que alguns funcionários foram informados das demissões por chamadas telefônicas de dois minutos, com bloqueio imediato de credenciais. Um dos ex-colaboradores, Will Mesilane, precisou deixar o Reino Unido após o cancelamento de seu visto de trabalho decorrente da demissão.
Monitoramento da comunidade e histórico de brechas
O processo revelou também que a pressão sobre o desenvolvimento não parte apenas de ataques cibernéticos, mas da vigilância constante da própria comunidade de fãs. A Rockstar citou na peça judicial que a frequência de idas de funcionários a cafeterias, o volume de tráfego de veículos nas proximidades dos estúdios e até as entregas de pizza nos escritórios eram rastreados por usuários da internet na tentativa de deduzir a rotina de produção do jogo.
A empresa relembrou episódios em que interações banais nas redes sociais alimentaram teorias infundadas. Em 2025, dois tuítes publicados por funcionários geraram especulações globais sobre o lançamento de um trailer em 27 de dezembro daquele ano, movimentando a cobertura da imprensa especializada internacional.
Apesar do aparato de segurança, a empresa enfrentou brechas pontuais ao longo dos anos:
- 2022: uma investida de phishing permitiu que um invasor acessasse o computador de um funcionário e obtivesse dezenas de vídeos de desenvolvimento compartilhados no canal interno do Slack;
- Novembro de 2023: demissão de um funcionário nos Estados Unidos por vazamento de informações;
- Abril de 2025: desligamento de um colaborador no escritório de Lincoln, no Reino Unido, por repasse de dados confidenciais divulgados posteriormente em redes sociais;
- Novembro de 2025: demissão de um funcionário na Índia sob acusações semelhantes.
Encaminhamento da audiência
As audiências no Tribunal de Glasgow estão agendadas para prosseguir até 16 de outubro. Os ex-funcionários solicitam a reintegração aos cargos ou a concessão de indenizações por demissão injusta. Em declaração pública aos jogadores, os trabalhadores demitidos orientaram a comunidade a não boicotar o lançamento de GTA 6, sugerindo que o apoio seja feito por meio da arrecadação de fundos organizados para arcar com as custas jurídicas do processo.
Paralelamente ao litigation no tribunal, a Rockstar Games e o sindicato IWGB mantêm negociações sobre o reconhecimento formal da representação sindical dentro da empresa, com pautas focadas em transparência salarial, flexibilidade de horários e limites para jornadas intensas de trabalho no setor.