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Tolkien realmente odiava Nárnia? Pesquisa desmente lenda sobre amizade com C.S. Lewis

Tolkien realmente odiava Nárnia? Pesquisa desmente lenda sobre amizade com C.S. Lewis

Por mais de meio século, o universo da literatura de fantasia nutriu a ideia de que J.R.R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis, sentia um desprezo profundo por As Crônicas de Nárnia. Segundo a narrativa popularmente replicada por biógrafos ao longo dos últimos 52 anos, a rejeição visceral de Tolkien ao trabalho do amigo C.S. Lewis teria sido o estopim para o fim definitivo da amizade entre ambos. Uma investigação detalhada, no entanto, revela que essa visão dramática não passa de uma lenda urbana construída sobre interpretações equivocadas.

A pesquisa da acadêmica Holly Ordway, publicada no periódico Sehnsucht: The C.S. Lewis Journal, analisa os relatos históricos da época e demonstra que a postura de Tolkien em relação ao universo de Nárnia era muito mais sutil, respeitosa e pautada por divergências estéticas do que a biografia tradicional fez parecer.

O mito do "ronco de desprezo" na leitura de 1949

A lenda sobre o colapso da amizade entre os dois escritores costuma citar um evento específico ocorrido em 1949. Naquele ano, C.S. Lewis leu os primeiros capítulos de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa para um grupo de amigos próximos. Relatos biográficos posteriores afirmavam que Tolkien teria reagido à leitura com um "ronco de desprezo", descartando o livro imediatamente.

Contudo, o levantamento de Holly Ordway indica que essa reação exagerada nunca constou nos registros originais das testemunhas presentes, como o escritor Roger Lancelyn Green. O que ocorreu de fato foi uma crítica pontual de Tolkien a respeito da coerência do universo construído por Lewis. Ao ouvir a descrição dos títulos presentes na estante do personagem Sr. Tumnus, Tolkien comentou:

“Isto realmente não funciona, sabe! Quero dizer: 'Ninfas e Seus Costumes, A Vida Amorosa de um Fauno'. Ele não sabe sobre o que está falando?”

Divergências estéticas e a rejeição à alegoria direta

A insatisfação de Tolkien com a obra de Lewis não derivava de rancor pessoal, mas de princípios fundamentais sobre a construção de mundos fictícios. Para Tolkien, o método de Lewis em Nárnia apresentava inconsistências narrativas difíceis de digerir. Ele questionava a reunião, em uma mesma história, de elementos mitológicos e folclóricos díspares, como:

  • Papai Noel;
  • Ninfas e faunos da mitologia greco-romana;
  • Castores falantes;
  • A Feiticeira Branca.

Para o criador da Terra-média, essa combinação desordenada quebrava a ilusão de um mundo com coesão própria. Além disso, Tolkien mantinha uma aversão declarada ao uso de alegorias deliberadas, especialmente à alegoria religiosa direta representada no universo de Nárnia — onde o leão Aslan atua como uma representação explícita de Jesus Cristo.

O respeito pela obra e a carta de 1971

Apesar das divergências em relação ao estilo e à estrutura narrativa, Tolkien não desprezava a capacidade literária do amigo nem o apelo de seus livros. O autor reconhecia o valor da escrita de Lewis e o mérito do sucesso que a saga alcançou entre os leitores.

Essa posição ficou explicitada em uma carta escrita por Tolkien em 1971, na qual abordou abertamente o assunto:

“Fico feliz que tenha descoberto Nárnia. Estas histórias são merecidamente muito populares; mas, já que me pergunta se gosto delas, receio que a resposta seja não. Não gosto da 'alegoria', e menos ainda da alegoria religiosa deste tipo. Mas essa é uma diferença de gosto que ambos reconhecíamos e que não interferia em nossa amizade.”

Os reais motivos do afastamento entre Tolkien e Lewis

A pesquisa de Ordway reforça que o distanciamento gradual entre os dois autores ao longo dos anos não teve relação direta com a publicação de Nárnia. Em seus próprios escritos, Tolkien registrou fatores da vida cotidiana e pessoal que alteraram a dinâmica da amizade:

  • A mudança de C.S. Lewis para a Universidade de Cambridge;
  • O casamento de Lewis com Joy Davidman;
  • A crescente influência do escritor Charles Williams sobre Lewis.

A análise conclui que a tese de que Nárnia destruiu a relação entre dois dos maiores nomes da literatura de fantasia foi resultado de extrapolações e conexões incorretas feitas por biógrafos nas décadas seguintes. Tolkien e Lewis mantiveram suas discordâncias no campo das preferências artísticas, preservando o respeito mútuo por suas trajetórias.

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