
Na cultura pop contemporânea, a trajetória de atores em busca do reconhecimento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas costuma gerar forte apelo público. Um dos exemplos mais marcantes dos últimos anos foi o de Leonardo DiCaprio, que precisou de 22 anos e cinco indicações até conquistar sua primeira estatueta por O Regresso. Contudo, a história do cinema carrega um recorde ainda mais impressionante de premiações frustradas na categoria de atuação principal, protagonizado por uma das maiores figuras da dramaturgia mundial: Peter O'Toole.
Ao longo de 53 anos de carreira e com participações em mais de 100 produções cinematográficas, o ator foi indicado oito vezes ao Oscar de Melhor Ator. Em todas as ocasiões disputadas de forma competitiva, ele saiu sem o troféu, estabelecendo uma marca inédita de nomeações na categoria principal sem vitória.
A estreia no cinema épico e a primeira disputa em 1963
A relação de Peter O'Toole com o prêmio máximo do cinema começou no topo. Seu primeiro grande papel de destaque nas telas foi a interpretação do personagem-título em Lawrence da Arábia, épico monumental dirigido por David Lean. Lançado com grande impacto crítico e comercial, o longa-metragem dominou a 35ª cerimônia do Oscar, conquistando sete estatuetas, incluindo as de Melhor Filme e Melhor Diretor.
Apesar da atuação aclamada como o oficial Thomas Edward Lawrence, O'Toole enfrentou em 1963 uma concorrência histórica. O prêmio de Melhor Ator acabou concedido a Gregory Peck por sua atuação como Atticus Finch em O Sol é para Todos. Essa derrota inicial marcaria o começo de um ciclo que se repetiria ao longo de quatro décadas.
As disputas históricas das décadas de 1960 e 1970
Apenas três anos após o sucesso de sua estreia em papéis principais, Peter O'Toole voltou a figurar entre os finalistas da premiação. Em 1966, ele recebeu sua segunda indicação pelo drama histórico Becket, o Favorito do Rei, adaptação da obra teatral de Jean Anouilh na qual viveu o Rei Henrique II da Inglaterra. A produção acumulou 12 indicações ao Oscar, mas venceu apenas na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, enquanto o prêmio de atuação masculina principal ficou com Rex Harrison por Minha Bela Dama.
A década de 1960 ainda reservaria mais duas nomeações para o ator. Em 1969, O'Toole retornou ao papel do Rei Henrique II em O Leão no Inverno, mas viu a estatueta ser entregue a Cliff Robertson por Os Dois Mundos de Charly. Logo em seguida, em 1970, conquistou sua quarta indicação por Adeus, Mr. Chips, ano em que John Wayne se sagrou vencedor por sua performance em Bravura Indômita.
A quinta nomeação ocorreu em 1973, com a comédia dramática A Classe Governante. Naquela edição, contudo, O'Toole disputou a estatueta contra um dos trabalhos mais aclamados da história do cinema: a interpretação de Marlon Brando como Vito Corleone em O Poderoso Chefão, que acabou levando o prêmio.
Embates nos anos 1980 e a última nomeação em 2007
Nas décadas seguintes, as indicações de Peter O'Toole continuaram a colocá-lo frente a frente com performances consagradas da sétima arte. Em 1981, o ator disputou o Oscar de Melhor Ator por seu trabalho em O Substituto, perdendo a estatueta para Robert De Niro, premiado por Touro Indomável.
Dois anos depois, em 1983, veio a sétima indicação com a comédia Um Cara Muito Baratinado. Naquele ano, a premiação foi dominada pelo épico Gandhi, e Ben Kingsley ficou com a estatueta de Melhor Ator.
A oitava e última indicação de Peter O'Toole à categoria principal ocorreu em 2007, pelo longa Venus. Naquela ocasião, a vitória foi atribuída a Forest Whitaker por sua atuação em O Último Rei da Escócia.
O Oscar Honorário e os anos finais
Antes de sua última indicação competitiva, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas prestou uma homenagem formal ao conjunto de sua obra. Em 2003, O'Toole recebeu um Oscar Honorário pelo impacto de sua carreira no cinema mundial. Durante o discurso de aceitação, o ator abordou o histórico de derrotas com bom humor ao citar a famosa expressão sobre ser sempre a dama de honra e nunca a noiva, declarando que o troféu recebido ficaria com ele até o fim de sua vida.
Peter O'Toole permaneceu em atividade no cinema e na televisão nos anos posteriores, participando de produções de grande orçamento como o épico Tróia, ao lado de Brad Pitt, e a série de drama histórico The Tudors. O ator faleceu aos 81 anos em 2013. Seu último trabalho gravado, o longa-metragem de ação The Whole World at Our Feet, teve lançamento postumamente dois anos após sua morte.