
Ao longo de décadas de carreira no Studio Ghibli, Hayao Miyazaki construiu uma reputação por evitar uma das estruturas mais tradicionais do cinema: a batalha direta entre um bem absoluto e um mal irredimível. Em vez de apresentar vilões clássicos cujas derrotas resolvem todos os conflitos, o diretor japonês opta por expor a complexidade das motivações humanas e as consequências de decisões contraditórias.
Essa abordagem intencional visa retratar o mundo em sua forma real, em vez de oferecer uma visão dualista simplificada para o público.
A recusa da divisão entre heróis e vilões
Em entrevista à revista francesa Positif, Miyazaki explicou que a concepção de A Viagem de Chihiro (2001) nasceu do desejo de criar uma história para as filhas de dez anos de seus amigos. Para o cineasta, meninas dessa idade precisavam ser apresentadas ao mundo como ele de fato funciona, sem a separação maniqueísta comum em produções ocidentais dominadas por heróis perfeitos e antagonistas malignos.
A posição do diretor sobre o tema já era clara anos antes. Em 1999, durante a promoção do lançamento de Princesa Mononoke (1997) nos Estados Unidos, Miyazaki questionou a utilidade da violência narrativa convencional em declaração ao Los Angeles Times: "Se você retrata alguém como mau e depois o mata, qual é o sentido?".
Zonas cinzentas e compaixão em Princesa Mononoke
A recusa em criar antagonistas unidimensionais fica evidente na construção dos personagens de Princesa Mononoke. O filme não estabelece uma figura central para ser odiada pelo espectador:
- Lady Eboshi: Embora seja responsável por desmatar a floresta para alimentar as fornalhas da cidade de ferro, a personagem compra contratos de ex-prostitutas e oferece abrigo e trabalho digno a leprosos. Como pontuou o próprio Miyazaki, a compaixão e a crueldade da personagem não conhecem limites.
- O deus javali Nago: O monstro que ataca a vila inicial é, na verdade, uma divindade da floresta consumida pelo ódio e pela dor provocados por um projétil de ferro oriundo das armas de Eboshi.
- Ashitaka: O protagonista recusa o combate focado na destruição do outro. Sua postura é definida por observar, escutar e tomar decisões com olhos livres de ódio.
As raízes no Xintoísmo e no Budismo
A construção moral das obras de Miyazaki é influenciada pelas tradições religiosas e filosóficas do Japão. Enquanto a narrativa ocidental tradicional foi profundamente moldada por conceitos rígidos de pecado e virtude, as visões xintoísta e budista enxergam o conflito frequentemente como fruto de desequilíbrios, deveres impostos ou circunstâncias temporárias.
Em 1997, em depoimento à revista Seiryu, Miyazaki destacou que as divindades no xintoísmo (os kami) não possuem uma natureza estritamente boa ou má. O mesmo deus pode manifestar tanto uma faceta pacífica e benevolente quanto uma alma violenta e severa.
Essa dualidade se reflete diretamente em seres como o Espírito da Floresta (Shishigami) em Princesa Mononoke, capaz de conceder a vida e, ao mesmo tempo, trazer a destruição absoluta quando sua cabeça é decepada.
Experiências reais transformadas em narrativa
A ausência de vilões absolutos também se estende aos problemas ambientais retratados por Miyazaki. Em A Viagem de Chihiro, a criatura fétida que chega à casa de banhos não é um monstro maligno, mas um deus do rio deformado pelo acúmulo de sujeira descartada pelos humanos. A entidade só recupera sua forma verdadeira quando a protagonista ajuda a remover uma bicicleta encalhada em seu corpo.
Durante uma coletiva de imprensa em Paris, Miyazaki revelou que essa cena específica não foi retirada do folclore antigo, mas inspirada em uma experiência pessoal de sua vida: o trabalho de limpeza realizado em um rio próximo à sua residência, de onde foi extremamente difícil retirar uma bicicleta imersa na lama.
Para o cineasta, o foco das histórias não reside na punição de um culpado, mas no ato de reconhecer o dano, limpar a sujeira e encontrar soluções para restaurar o equilíbrio perdido.