
Em 1958, o escritor e professor britânico J.R.R. Tolkien, criador dos clássicos O Hobbit e O Senhor dos Anéis, respondeu a uma correspondência de uma estudante norte-americana com um relato detalhado sobre sua vida pessoal. Ao listar seus hábitos e preferências cotidianas para a pesquisadora, o autor declarou que se considerava um "Hobbit em tudo, menos no tamanho".
Resistência à exposição pessoal e críticas acadêmicas
Tolkien sempre manteve reservas em relação à exposição pública e ao interesse de biógrafos ou críticos sobre sua vida privada. A declaração histórica surgiu na chamada "Carta 213", enviada a Deborah Webster, aluna de doutorado na Universidade de Wisconsin que preparava uma tese sobre as obras do autor e de C.S. Lewis.
Ao ser solicitado a fornecer informações biográficas, Tolkien iniciou a resposta demonstrando incômodo com o foco exagerado da crítica literária nos detalhes da vida dos artistas. Para o professor, dados pessoais costumavam desviar a atenção da obra em si, que deveria ser o foco principal do interesse público.
Hábitos simples e semelhanças com os personagens do Condado
Apesar da relutância inicial em compartilhar dados pessoais, o escritor acabou cedendo e listou aspectos de sua rotina. As preferências descritas por Tolkien apresentavam forte semelhança com o estilo de vida pacato atribuído aos Hobbits em suas obras fictícias.
Entre os hábitos e gostos revelados na carta, o autor destacou:
- Gosto pela natureza: apreciação por jardins, árvores e terras agrícolas não mecanizadas;
- Alimentação e fumo: hábito de fumar cachimbo, preferência por comida simples e fresca sem refrigeração, além de apreço por cogumelos colhidos no campo;
- Culinária e vestuário: aversão à culinária francesa e gosto pelo uso de coletes ornamentais;
- Rotina: hábito de dormir e acordar tarde, além de um senso de humor simples.
No mesmo documento, Tolkien abordou suas preferências linguísticas e geográficas. O escritor declarou seu afeto pelo País de Gales e pela língua galesa, além de mencionar visitas frequentes à Irlanda. No entanto, observou que achava o idioma irlandês desinteressante e revelou preferir o espanhol ao italiano, além de declarar sua fé cristã.
Destino da correspondência e publicação
Apesar do desabafo inicial sobre a invasão de privacidade, a correspondência serviu como base para a pesquisa acadêmica de Deborah Webster. A estudante concluiu seu doutorado em 1972 com a dissertação intitulada The Fictitious Characters of C.S. Lewis and J.R.R. Tolkien.
Anos mais tarde, em 1982, o conteúdo da carta enviada pelo autor foi incluído em um apêndice da obra J.R.R. Tolkien: A Critical Biography, preservando o registro histórico em que o criador da Terra-média associou sua própria personalidade às suas criaturas mais famosas.
Conclusão
A carta enviada por J.R.R. Tolkien em 1958 revela como a personalidade e as preferências do autor estavam diretamente conectadas ao universo fantástico que ele construiu. Mesmo avesso à fama e à curiosidade sobre sua vida privada, o escritor deixou registrado de forma direta o quanto se identificava com o estilo de vida simples dos Hobbits.